Overrun no sorvete é a porcentagem de ar incorporada à base durante o batimento, medida por peso: você pesa o mesmo recipiente cheio de base e cheio de gelado, e a diferença é o ar. Sorvete artesanal costuma ficar entre 30% e 60%; gelato, entre 20% e 35%; picolé de água, em zero. A conta cabe em uma linha:
Overrun % = (peso da base − peso do gelado) ÷ peso do gelado × 100
Uma base que pesa 109 g num copo de 100 mL e sai da produtora a 50 g no mesmo copo tem 118% de overrun — mais que dobrou de volume.
Por que medir muda a conversa sobre textura
Overrun é uma medição, não uma sensação. Essa distinção parece pedante até a primeira vez que você tenta corrigir um sorvete duro sem ela. O caminho quase automático é mexer no açúcar — e, na maioria dos casos que aparecem em fóruns e grupos de sorveteiro, isso piora o produto em vez de resolver.
O motivo é simples: dureza e densidade são controladas por variáveis diferentes. Um sorvete pode estar duro por ter pouco ar (muita massa e muito gelo por colherada) ou por ter pouco poder anticongelante (fração alta de água congelada na temperatura de servir). Os dois sintomas são idênticos na colher e as correções são opostas.
Quem adoça um sorvete que estava só pouco aerado termina com um produto doce e duro. Depois adoça mais. É um ciclo de correção que não fecha, porque a alavanca acionada nunca foi a que estava travada.

Medir overrun custa uma balança, um pote rígido e três minutos. É a medição mais barata da confeitaria de gelados e a que mais rapidamente elimina meia dúzia de hipóteses erradas.
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O que é overrun e por que o ar conta como ingrediente estrutural
Overrun é a fração de volume que o ar ocupa dentro do gelado, expressa como porcentagem de aumento sobre o volume da base. Se 1 litro de base virou 1,6 litro de sorvete, o overrun é 60%. Em português técnico o mesmo número aparece como taxa de incorporação de ar — é sinônimo, não outra métrica.
O ar não é enchimento — é o quarto componente estrutural do sorvete, junto com os cristais de gelo, os glóbulos de gordura e o xarope concentrado que não congela. Essa mistura de quatro fases é o que a literatura técnica chama de matriz parcialmente congelada: pense num creme espesso, cheio de cristais de gelo minúsculos, com bolhas de ar presas por uma armadura de gordura ao redor de cada uma.
Sem ar, essa matriz vira um bloco. Com ar, ela vira algo que a colher atravessa.
O ar cumpre três funções mensuráveis dentro do gelado:
- Reduz a massa por colherada, então há menos gelo e menos calor a ser transferido para a boca em cada porção;
- Reduz a condutividade térmica — ar é um isolante, e uma matriz cheia de bolhas conduz frio mais devagar, o que faz o produto parecer menos “gelado” mesmo à mesma temperatura;
- Interrompe a continuidade dos cristais de gelo, dificultando que eles cresçam colados uns aos outros ao longo da estocagem.
É por isso que a métrica existe. Não é um índice de rendimento comercial (embora também seja isso, do ponto de vista de quem vende litro): é o número que descreve quanto da estrutura do seu produto é ar com função técnica.
Como calcular overrun: a fórmula e o erro de denominador que derruba o resultado
Existem três formas de escrever a mesma conta, e todas dão o mesmo número quando aplicadas corretamente. A primeira é a que você vai usar na bancada, porque só exige uma balança:
Overrun % = (peso da base − peso do gelado) ÷ peso do gelado × 100
A segunda é a definição formal, por volume — útil para entender o conceito, inviável de medir em casa:
Overrun % = (volume do gelado − volume da base) ÷ volume da base × 100
A terceira é a que amarra tudo, e a mais útil quando você quer trabalhar em cima de densidade em g/L:
Overrun % = (densidade da base ÷ densidade do gelado − 1) × 100
A fórmula por peso só é válida se os dois pesos vierem do mesmo recipiente, cheio até a mesma marca. Ela funciona porque, a volume constante, a diferença de peso é exatamente o peso que o ar “roubou” do copo. Trocar o pote entre uma pesagem e outra invalida a conta inteira.
O exemplo trabalhado
Um copo dosador rígido de 100 mL, tarado. Cheio com a base maturada a 4 °C, ele acusa 109 g. Cheio com o gelado recém-extraído, sem comprimir, acusa 50 g.
(109 − 50) ÷ 50 × 100 = 118% de overrun
E a densidade sai da mesma pesagem: 50 g em 0,1 L = 500 g/L. Dois números com uma balança e um copo.
O erro que quase ninguém alerta
O erro mais comum é dividir pelo peso da base:
(109 − 50) ÷ 109 × 100 = 54%
Cinquenta e quatro por cento é um número plausível. Cabe na faixa de um sorvete artesanal. E está errado — o produto real tem 118%.
O denominador é sempre o produto final, porque a pergunta que o overrun responde é “quanto de ar foi somado ao que eu já tinha”. Você tinha 50 g de massa naquele copo; o ar acrescentou o equivalente a 59 g de volume de massa deslocada. A comparação é contra a massa que sobrou, não contra a que entrou.
Esse erro é silencioso e por isso é perigoso: ele nunca gera um resultado absurdo que faça você desconfiar. Só gera um número consistentemente menor, que faz você achar que precisa de mais ar quando já está no limite.
Como medir o overrun no sorvete com balança e um pote: o protocolo do copo padrão
Você não precisa de máquina contínua com bomba de ar dosada para medir overrun. Precisa de um recipiente rígido de volume conhecido e de uma balança. O protocolo abaixo é o mesmo em batch freezer de gelateria, em sorveteira doméstica e em batedeira vertical de sorveteria artesanal.
- Escolha um recipiente rígido de volume conhecido. 250 mL é o tamanho mais confortável; um copo dosador de plástico duro serve. Não use pote flexível — ele deforma sob a pressão da espátula e muda o volume entre as duas pesagens.
- Tare o recipiente vazio na balança. Precisão de 1 g resolve; 0,1 g é melhor, especialmente em recipientes pequenos.
- Encha com a base já maturada e a 4 °C, rasando o topo com uma espátula reta. Anote o valor: esse é o peso A.
- Extraia o gelado e encha o mesmo recipiente, colhendo em fitas e rasando o topo, sem comprimir em nenhum momento. Anote: esse é o peso B. Faça isso na extração, não depois do endurecimento no freezer.
- Calcule os dois números:
Overrun = (A − B) ÷ B × 100eDensidade = B ÷ volume do recipiente em litros. - Repita três vezes e use a média. A variação entre as três medições diz mais sobre a consistência do seu processo do que o número absoluto de qualquer uma delas.
Se as três medições variarem 15% ou mais entre si, o problema provavelmente está na técnica de encher o copo — e não no sorvete. Vale refazer antes de tirar qualquer conclusão sobre a formulação.
Protocolo do copo padrão: as seis etapas da medição de overrun com balança, do recipiente rígido de 250 mL à média de três repetições

- Quantidade de copos: 1. | Inclui tapa: Não. | Capacidade em volume: 250 mL. | Capacidade de 250ml para diversas bebidas….
Todo o protocolo acima depende de uma única condição física: os dois pesos precisam sair do mesmo volume. É por isso que o passo 1 recusa pote flexível — a parede cede sob a espátula ao rasar, o volume interno muda entre a pesagem da base e a do gelado, e o overrun que sai é ficção.
Um copo dosador rígido em policarbonato resolve os dois pontos que a medição exige: a parede não deforma quando você rasa o topo, e a graduação impressa dá o volume conhecido que o cálculo de densidade em g/L usa como divisor. Os modelos de 250 mL com borda reta são os mais confortáveis para colher o gelado em fitas sem comprimir — e a mesma peça serve para as três repetições da média.
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Densidade da base: o número que quase ninguém mede e que muda todas as contas
A densidade da sua base é o dado ausente da maioria dos cálculos de overrun publicados em português. E ela nunca é 1.000 g/L.
Uma base de sorvete pesa mais que água porque o açúcar dissolvido é mais denso que o solvente que o dissolve. Sacarose sólida tem cerca de 1.587 g/L; a gordura, ao contrário, fica na faixa de 900 a 930 g/L. Numa base com 15% de açúcar e 8% de gordura, o açúcar domina o balanço e a densidade final passa de 1.000 g/L.
| Tipo de base | Densidade típica (faixa estimada) |
|---|---|
| Base láctea de sorvete (32-40% de sólidos) | 1.050-1.120 g/L |
| Base de gelato (36-42% de sólidos) | 1.080-1.130 g/L |
| Base de sorbet de fruta (28-34% de sólidos) | 1.090-1.140 g/L |
Faixas estimadas a partir da composição típica de cada base, não medidas em laboratório. Meça a sua: é a pesagem do passo 3 do protocolo acima, e ela já sai de graça no processo.
A consequência prática é aritmética. Quem assume “base = 1 kg/L” subestima o próprio overrun em algo entre 5% e 13% — porque está usando um numerador menor que o real na fórmula por densidade. Num produto que roda perto do limite legal ou perto do ponto em que a estrutura colapsa, essa margem não é decorativa.

E há um ganho colateral: uma vez que você conhece a densidade da sua base, pode calcular o overrun de qualquer amostra a partir de uma única pesagem, sem repetir a medição da base.
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Overrun no sorvete, no gelato e no sorbet: a tabela de referência por tipo
O overrun ideal não é um número único: é a faixa do tipo de produto que você quer entregar. A tabela abaixo é o mapa de referência. As faixas de overrun são compiladas de literatura técnica e de prática de gelateria (fontes convergentes em inglês, espanhol e português); as densidades resultantes são calculadas a partir delas, assumindo uma base de 1.100 g/L.
Essa premissa é explícita de propósito: se a sua base tiver densidade diferente, as densidades da coluna do meio mudam, e as faixas de overrun não. É exatamente o ponto do artigo.
| Tipo | Overrun típico | Densidade resultante | Mecanismo de aeração |
|---|---|---|---|
| Picolé / paleta de água | 0% | ~1.100 g/L | nenhum — congelamento estático |
| Sorbet artesanal | 0-25% | 880-1.100 g/L | batedor da produtora; base sem gordura retém pouco ar |
| Gelato artesanal | 20-35% | 815-915 g/L | batch freezer horizontal com cilindro cheio |
| Sorvete artesanal brasileiro | 30-60% | 690-845 g/L | batedeira vertical, que incorpora mais ar que a horizontal |
| Soft serve | 40-60% | 690-785 g/L | ar dosado e extração a temperatura mais alta |
| Sorvete “premium” (padrão norte-americano) | 50-90% | 580-730 g/L | contínua com bomba de ar, gordura de 12-16% |
| Sorvete padrão / econômico industrial | 90-120% | 500-580 g/L | contínua com bomba de ar e estabilizante alto |
| Piso legal brasileiro (RDC 713/2022) | — | 475 g/L (mínimo) | teto de overrun ≈ 131% com base a 1.100 g/L |
| Semifreddo / parfait gelado | 60-100% (ver nota) | 550-690 g/L | ar incorporado antes do frio |
A linha do sorbet é a que mais confunde: a faixa é baixa porque a base sem gordura não tem glóbulos para segurar a bolha, e é o açúcar — não o ar — que faz o trabalho de textura ali.
Leia também: O que é sorbet: por que o açúcar, não a gordura, define a textura
A nota do semifreddo, que não é detalhe
Semifreddo e parfait gelado não têm overrun no sentido estrito. Neles, o ar entra antes do congelamento — batido no creme ou no merengue — e o produto congela parado, sem batedor nenhum.
A diferença importa porque define o que você pode corrigir. No sorvete, aeração e congelamento são o mesmo evento, dentro do cilindro: mexer no batedor muda o ar. No semifreddo, o ar já estava definido quando a mistura entrou no freezer, e nenhuma variável de congelamento vai alterá-lo.
A métrica de densidade continua servindo para comparar os dois produtos. O fenômeno por trás dela, não. Nesse caso, quem define quanto ar entra é a etapa de bater creme ou merengue — a mesma física de espuma estabilizada por gordura que existe fora do freezer.
Leia também: Por que o chantilly não firma? As causas reais e como resolver
O que a lei brasileira exige de verdade: 475 g/L, RDC 713/2022 e o falso teto de 110%
A norma vigente para gelados comestíveis no Brasil é a RDC nº 713, de 1º de julho de 2022, da ANVISA, em vigor desde 1º de setembro de 2022. Ela exige densidade aparente mínima de 475 g/L e não menciona overrun em nenhum ponto.
Dois detalhes fazem diferença aqui.
O primeiro é que quase todo o conteúdo em português sobre o assunto cita a RDC nº 266/2005 — revogada pela 713/2022. O requisito numérico de 475 g/L sobreviveu à troca, então quem cita a norma antiga não erra o número; erra a referência, o que é suficiente para invalidar a citação num documento técnico, num rótulo ou numa fiscalização.
O segundo é o “teto de 110% de overrun” que circula como se fosse texto de lei. Não existe teto de overrun na legislação brasileira — existe piso de densidade, e o teto de overrun é uma consequência aritmética dele que depende da densidade da sua base.
A conta é a fórmula por densidade, invertida:
Overrun máximo % = (densidade da base ÷ 475 − 1) × 100
| Densidade da base | Overrun máximo legal |
|---|---|
| 1.000 g/L | ~110% |
| 1.050 g/L | ~121% |
| 1.100 g/L | ~131% |
| 1.130 g/L | ~138% |
Os famosos 110% são o caso particular de uma base que pesa exatamente 1 kg/L — praticamente nenhuma base real pesa isso, como a tabela da seção anterior mostra. Com uma base de 1.100 g/L, o teto legal efetivo é 131%, não 110%.
Isso não é licença para inflar o produto. É a diferença entre saber por que o limite existe e repetir um número herdado de terceira mão.
As alavancas que aumentam ou derrubam o overrun
Overrun não é controlado por uma variável só. Ele é o resultado de quanto ar a matriz consegue incorporar e de quanto ela consegue retê-lo depois de incorporado — duas capacidades diferentes, com alavancas diferentes.
| Alavanca | Direção | Por quê |
|---|---|---|
| Gordura láctea (6-12%) | ↑ até um ótimo, depois ↓ | glóbulos parcialmente coalescidos formam a armadura da bolha; excesso de gordura livre desestabiliza a espuma |
| Sólidos não gordurosos do leite (8-11%) | ↑ | proteínas do leite são os agentes de interface que seguram a bolha |
| Emulsificante (mono e diglicerídeos, 0,1-0,3%) | ↑ (forte) | desloca proteína da superfície da gordura, promovendo desestabilização parcial controlada — mais ar retido, produto mais “seco” |
| Estabilizante (guar, alfarroba, CMC) | ↑ até um ótimo, depois ↓ | a viscosidade segura a bolha formada; viscosidade excessiva impede a entrada de ar |
| Sólidos totais (32-42%) | ↑ | fase contínua mais concentrada forma um filme mais resistente ao redor da bolha |
| Temperatura de extração | mais frio = ↑ até certo ponto | matriz mais viscosa retém mais ar; frio demais trava o batedor |
| Tempo de batimento | ↑ até um máximo, depois ↓ | passado o ótimo, as bolhas coalescem e colapsam |
| Enchimento do cilindro | cilindro cheio = ↓ | menos espaço livre significa menos ar disponível para ser incorporado |
| Tipo de máquina | vertical > horizontal; contínua com bomba = controle exato | geometria do batedor e existência ou não de dosagem de ar |
| Açúcar (poder anticongelante) | efeito indireto, tende a ↓ | mais poder anticongelante significa menos gelo à mesma temperatura, matriz menos viscosa e menor retenção de ar |
Duas linhas dessa tabela merecem destaque, porque são as que mais surpreendem quem está formulando pela primeira vez.
O enchimento do cilindro é a alavanca mais imediata e a mais ignorada. É assim que uma gelateria sem bomba de ar controla overrun: enche mais o cilindro para derrubar o número, enche menos para subir. Não muda nada na receita, e o efeito aparece na primeira extração.
E o açúcar, que quase todo mundo trata como alavanca de textura, é uma alavanca indireta e contrária aqui. Ao rebaixar a fração de água congelada, ele deixa a matriz menos viscosa no momento do batimento — e uma matriz menos viscosa retém menos ar.
Por que bater mais tempo pode reduzir o overrun?
Porque existe um máximo, e depois dele o overrun cai. Bater além do ponto de extração não adiciona ar: destrói o que já foi incorporado.
O mecanismo é a coalescência das bolhas — bolhas pequenas se fundindo em bolhas grandes. O ar dentro de um gelado bem batido está distribuído em bolhas minúsculas, cada uma envolvida por uma camada de glóbulos de gordura parcialmente unidos, que funciona como uma casca. É essa casca que impede a bolha de estourar.
Com batimento excessivo, dois processos correm juntos. A gordura se desestabiliza além do ponto útil, formando grumos visíveis — o defeito que a gelateria chama de produto “manteigoso”. E as bolhas, perdendo sua armadura, se fundem em bolhas grandes, que sobem pela matriz e escapam.
O resultado é um produto que passou por mais trabalho mecânico e saiu mais denso que se você tivesse parado antes. Se o seu overrun caiu depois de você aumentar o tempo de batimento, não aumente mais: o ponto ótimo ficou para trás. No limite, a gordura desestabilizada deixa de formar grumos e passa a se separar da matriz — é o mesmo mecanismo que transforma sorvete em manteiga dentro da máquina.
Leia também: Por que o sorvete vira manteiga na sorveteira?
Esse é um dos motivos práticos para medir sempre no mesmo instante do processo. Overrun medido na extração e overrun medido dez minutos depois no freezer são dois números diferentes do mesmo produto.
Overrun ou PAC: seu sorvete está denso ou está duro?
Denso e duro são defeitos diferentes com sintomas parecidos, e a confusão entre os dois é o erro número um de quem formula sorvete sozinho.
- Poder anticongelante (PAC) controla a fração de água que está congelada a uma dada temperatura. Ele controla a dureza.
- Overrun controla a densidade e a condutividade térmica do produto. Ele controla a sensação de leveza e de quão “frio” o gelado parece na boca.
São duas variáveis independentes cujos efeitos se misturam no paladar. É por isso que uma pergunta que parece contraditória tem resposta simples: como o gelato tem menos ar que o sorvete e ainda assim é mais macio na colher?
Duas razões, nenhuma delas o ar. A primeira é a temperatura de serviço: gelato de vitrine trabalha por volta de −11 a −14 °C, enquanto sorvete de pote é servido a −14 a −18 °C. A segunda é a formulação: o gelato costuma ter poder anticongelante mais alto, então a fração de gelo à temperatura de vitrine é menor.
Menos ar, menos gelo, mais quente. A maciez vem das duas últimas.
A regra de decisão é medir o overrun antes de tocar no açúcar. Se o overrun está na faixa do seu tipo de produto e o gelado continua duro, o problema é poder anticongelante ou temperatura de serviço. Se o overrun está abaixo da faixa, mexer no açúcar vai deixar o produto doce e continuar duro — o mesmo ciclo de correção que não fecha, descrito no começo deste artigo.
Árvore de decisão: sorvete duro é falta de ar ou falta de poder anticongelante? A rota muda conforme o overrun medido cai dentro ou abaixo da faixa do tipo de produto

Defeitos que denunciam overrun errado
Alguns defeitos clássicos de gelado são leitura direta do overrun. Outros são atribuídos a ele por engano, e essa distinção economiza semanas de ajuste na direção errada.
| Sintoma | Overrun provável | Causa | Correção |
|---|---|---|---|
| Duro de porcionar, sensação muito “gelada” na boca | baixo (<20% em base láctea) | pouco ar significa mais gelo e mais condução térmica por colherada | aumentar o ar (batedor, enchimento do cilindro) antes de mexer no açúcar |
| Espumoso, sabor apagado | alto (>100% em artesanal) | o ar dilui os sólidos disponíveis por colherada | reduzir o overrun; ar não tem sabor |
| Derrete depressa na taça | alto | menos massa por volume e matriz mais frágil | reduzir o overrun e/ou ajustar o estabilizante |
| Pote encolheu no freezer (shrinkage) | alto, com bolha grande | bolhas grandes coalescem e escapam sob oscilação térmica | reduzir o overrun, revisar o emulsificante, controlar a oscilação do freezer |
| Textura arenosa depois de dias | não é overrun | recristalização de gelo e de lactose | problema de estabilizante e de oscilação térmica, não de ar |
| Manteigoso, com grumos de gordura | passou do ótimo de batimento | desestabilização excessiva da gordura | reduzir tempo ou velocidade de batimento |
O shrinkage merece um parágrafo próprio, porque é o defeito mais frustrante da lista: o pote parece ter perdido produto sozinho, com a superfície recuando das paredes.
O pote não encolheu — o ar saiu. Em overrun alto com bolhas grandes, cada ciclo de oscilação térmica do freezer derrete e recongela uma fração da matriz, permitindo que as bolhas se fundam e migrem para fora. O volume que sai é ar, e o que resta é a massa. Reduzir overrun ou melhorar a estabilidade da bolha resolve; culpar a embalagem não.
A mesma oscilação térmica que expulsa o ar é a que faz o gelo recristalizar — e essa é a linha da tabela que não é problema de overrun.
Leia também: Por que o sorvete caseiro fica com cristais de gelo? Causas técnicas e como evitar
Erros de medição que produzem um overrun falso
Antes de acreditar num número, vale conferir se ele foi produzido por um dos erros abaixo. Todos eles geram valores plausíveis, o que os torna difíceis de detectar sem uma segunda medição.
- Comprimir o gelado no copo — expulsa ar e faz o overrun aparente ficar menor que o real. É o erro mais comum, e o mais fácil de cometer por reflexo de quem trabalha com espátula.
- Medir depois do endurecimento ou da estocagem — parte do ar já escapou, então o resultado subestima o overrun de extração.
- Não tarar o recipiente — o peso do copo entra nos dois lados da conta e distorce o resultado de forma desigual.
- Medir a base morna, recém-pasteurizada — dilatação térmica reduz a densidade da base, o peso A cai e o overrun sai superestimado. Base a 4 °C, sempre.
- Usar recipientes diferentes para base e gelado — a fórmula por peso só funciona a volume constante. Trocar o pote invalida a medição.
- Medir um sabor com variegato ou pedaços — você mede a inclusão, não a matriz. Meça no sabor puro, antes da adição.
- Dividir pelo peso da base — o erro de denominador da seção da fórmula, que devolve um número consistentemente menor.
Um teste de controle rápido: meça o mesmo gelado duas vezes, uma colhendo em fitas e outra prensando com a colher. A diferença entre os dois valores é a magnitude do erro de compressão no seu processo, e ela costuma ser grande o bastante para mudar a decisão de formulação.
O que este artigo mediu e o que compilou
Transparência de método vale mais que aparência de autoridade, então aqui está a separação honesta.
Medido em fonte primária: o requisito de densidade aparente mínima de 475 g/L e a vigência da RDC nº 713/2022 vêm da leitura do texto normativo da ANVISA, não de citação de terceiros — foi assim que a revogação da RDC 266/2005 e a ausência de qualquer menção a overrun na norma foram confirmadas.
Calculado: todas as densidades resultantes da tabela de faixas e todos os tetos legais de overrun por densidade de base são aritmética explícita, feita com a premissa declarada de base a 1.100 g/L. Você pode refazer cada conta com a densidade da sua própria base.
Compilado de literatura técnica: as faixas de overrun por tipo de gelado e as faixas de temperatura de serviço vêm de fontes convergentes de prática de gelateria e de formulação industrial. São referências de partida, não especificações — a sua máquina, a sua base e a sua vitrine definem o seu número.
Estimado: as densidades típicas de base da tabela da quarta seção, derivadas de composição, e que você deve substituir pela medição da sua própria base no primeiro batch em que rodar o protocolo.
Perguntas frequentes
Qual é o overrun ideal para sorvete artesanal?
Entre 30% e 60% para sorvete artesanal brasileiro feito em batedeira vertical, o que corresponde a uma densidade de 690 a 845 g/L com base a 1.100 g/L. Gelato fica mais baixo, entre 20% e 35%. Não existe um valor único ideal: existe a faixa do tipo de produto que você quer entregar, e consistência entre batches dentro dela.
O overrun máximo permitido no Brasil é 110%?
Não. A RDC nº 713/2022 da ANVISA não estabelece teto de overrun — ela exige densidade aparente mínima de 475 g/L. Os 110% são o teto que resulta de assumir uma base de exatamente 1.000 g/L. Com uma base real de 1.100 g/L, o teto legal efetivo é de aproximadamente 131%.
Como calcular overrun sem máquina industrial?
Com uma balança e um recipiente rígido de volume conhecido. Pese o recipiente cheio de base a 4 °C (peso A), depois pese o mesmo recipiente cheio do gelado recém-extraído, sem comprimir (peso B), e aplique (A − B) ÷ B × 100. Repita três vezes e use a média.
Sorbet e picolé têm overrun?
Picolé de água tem overrun zero — congela parado, sem batedor. Sorbet tem overrun baixo, de 0% a 25%, porque a base sem gordura não tem glóbulos para formar a armadura que estabiliza a bolha de ar. Densidade alta, portanto, é característica esperada desses produtos, não defeito.
Meu sorvete está duro: é falta de ar ou falta de açúcar?
Meça o overrun antes de decidir. Se ele estiver dentro da faixa do seu tipo de produto e o gelado continuar duro, o problema é poder anticongelante ou temperatura de serviço, não ar. Se estiver abaixo da faixa, aumente a aeração primeiro: mexer no açúcar nesse caso deixa o produto doce e ainda duro.




